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Intolerância: um fenômeno social

Uma visão de como as formas de construção de identidade ajudam a entender o cenário de intolerância em que vivemos hoje
Uma visão de como as formas de construção de identidade ajudam a entender o cenário de intolerância em que vivemos hoje.


Escrito por: Alecs Pereira


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É comum pensarmos em como nos identificamos no mundo, de que forma vemos o outro e de que forma ele nos vê. Essa identidade que buscamos, pode determinar a forma como nos comunicamos, como socializamos e como agimos em sociedade. Após assistir aos documentários “Mapuche – Gente da Terra” (2012), e “Intolerância e Fé no Brasil” (2017), encontrei no texto “Identidade – uma ideologia separatista?”, de Bader Burihan Sawaia (1999) algumas considerações teóricas sobre o assunto.


Tanto o texto quanto os documentários versam sobre as diferentes formas de identidade, suas construções sócio-históricas e alguns exemplos de como este fenômeno social pode colaborar para a qualidade das relações e/ou atuar como ideologia cristalizada de diferenciação do outro, agindo a favor das classes dominantes, gerando um cenário de intolerância em diversas dimensões da vida social.


Para que uma identidade seja gerada de forma a fortalecer as relações sociais, é importante que exista uma dialética entre a identificação de si – conhecer sua tradição, sua história, do que se é constituído – e a identificação do outro, como sujeito que também nos compõe e que nos ajuda a continuar mudando, apesar do que nos foi colocado. A identificação fluida gera a possibilidade de que ocorram mudanças na maneira como nos enxergamos, e em como enxergamos os outros. O equilíbrio entre a identidade de si e a identidade de indivíduos ou grupos, nos permite utilizar esse fenômeno de forma a se reconstituir, se ressignificar, se respeitar e se reconhecer. Dessa forma há o equilíbrio entre o que é de si e o que é do outro, e o entendimento de que é possível ser diferente sem que exista uma desigualdade de valor social.


No caso da identidade cristalizada, o desafio é compreender como se dão as relações permeadas pela intolerância, tão comuns no contexto atual. Sawaia (1999) destaca que a ideologia em torno da meritocracia e do desenvolvimento individual, sejam ferramentas que reforçam o fenômeno da segregação social. A identidade baseada somente em tradição e valorização individuais, sem possibilidade de mudanças, sem identificação com o outro, torna-se fator determinante para que as interações sociais adoeçam. A individualização fomentada pelo modo de operação do capitalismo é um bom exemplo de identidade que gera segregação social. Tal posicionamento não permite que ocorra entendimento do outro, além do já cristalizado julgamento por essa ótica narcísica (Sawaia, 2019). Sendo assim, a valorização extrema da individualidade contribui para uma sociedade separatista e intolerável com o diverso existente em outras pessoas.


Segundo Sawaia (2019), as relações de poder, desigualdade social, intolerância e manipulação de massas, estão interligadas. Identidades cristalizadas, pautadas somente no conhecimento de si com vantagens competitivas, permeiam grande parte dos conflitos existentes na sociedade atual. Como exemplo dessa afirmação do autor, destaca-se o conceito de identidade cristalizada, que nos ajuda a entender muitas das atitudes de violência social vistas hoje. A identidade permeada pela crença de que devemos ser bem-sucedidos é um bom exemplo para este caso. Com a visão de si pautada no sucesso, na meritocracia e no poder de consumo, o indivíduo não estabelece uma conexão equilibrada entre diferença e igualdade. Nessa visão de si, o outro passa a ser um concorrente, alguém com quem se deve lutar e se sobressair, não havendo fluidez no contato ou entendimento do outro. Esses fatores acabam por estimular ainda mais a discrepância social vivida no Brasil, favorecendo aqueles que fazem parte da elite dominante e fortalecendo a identificação dos oprimidos, que acabam por almejar um dia também se tornarem opressores, perpetuando o cenário de separação social.


A maneira como a religião e os costumes de povos colonizadores foram impostos, são exemplos dessa equação às avessas do modelo de relação social que vemos no Brasil. A exemplo do que aconteceu em outros países colonizados, as crenças dos povos locais foram proibidas ao longo dos anos. Assim, a atuação sob novas regras religiosas colaborou para que os descendentes nativos adotassem uma identidade não pertencente às suas tradições, gerando novamente o desequilíbrio entre o entendimento de si e o entendimento do outro. Do ponto de vista de costumes, a relação da sociedade com supostos modelos de sucesso é ponto importante da constituição da identidade, que pode gerar separação e sofrimento. Nesse sentido, como destaca Sawaia (1999), as identidades formadas a partir da necessidade de se integrar a um “grupo de sucesso”, tornam-se alvo de fácil manipulação no que se refere a comportamentos sociais. A vinculação dessas prerrogativas de identidade com os “modelos de sucesso”, faz com que nações colonizadas tenham sociedades que adotem costumes que se sobrepõem às suas tradições, constituindo sua identidade com valores que permitem fácil manipulação, imposta por grupos dominantes (nesse exemplo, países colonizadores).


Observando a questão da manipulação, podemos acessar episódios recentes sobre o intenso posicionamento político nas redes sociais. Não é incomum ver amigos trocando farpas a todo minuto, se municiando de intolerância ao diferente, sem escuta ao outro ou a autocrítica como ferramenta dialética. O conceito de identidade trazido por Sawaia (1999), bem como o questionamento que infere no texto, nos faz pensar que, dependendo de sua natureza, a identidade pode ser utilizada como instrumento para que determinada ideia seja considerada “verdade absoluta”. Essa verdade cega é o produto de uma manipulação já estabelecida, como no caso político brasileiro, onde a intolerância predomina nos discursos de descrença e descrédito, dependendo do lado da balança.


No campo dos costumes, podemos citar a diferença nas relações sociais entre pessoas que consomem produtos importados em relação às que não tem a mesma oportunidade, seja por imposição do meio ou por convicção. Sobre costumes podemos citar a inserção do modelo de vida americano. Quando observadas sob a ótica brasileira, vemos inúmeros exemplos de que o modo de vida norte-americano é frequentemente ligado ao sucesso. Nessa vertente, podemos citar a ideologia da identidade norte americana como alvo a ser alcançado pelos brasileiros – aqueles que chegam mais perto se sentem “vencedores”, colocando os que não seguem as mesmas premissas como “perdedores”.


Pode-se concluir que o caminho para que a constituição de uma identidade seja trilhado de forma a evitar um efeito separatista, passe pelo equilíbrio entre a conscientização daquilo que forma o indivíduo e pelo rompimento da “cultura do narcisismo”, ou da identidade voltada para si, como diz Sawaia (1999) apud Lasch (1987). Dessa forma, é possível que a identidade tenha como base o olhar para si e para o outro, deixando de ser fixa e cristalizada, tornando-se líquida, facilitando a compreensão do outro e incorporando a possibilidade de mudá-lo e ser mudado por ele.