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Tempo é dinheiro?

Temos que entender que tempo não é dinheiro. Essa é uma brutalidade que o capitalismo faz, como se o capitalismo fosse o senhor do tempo. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida”. Antônio Cândido


Escrito por: Renata Lage Borges


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Quem já se pegou não sabendo o que fazer no seu tempo livre? Esperou tanto pelo fim de semana e quando ele chegou, ficou maratonando séries? Ou gastou horas e horas em uma rede social espiando a vida alheia e depois experimentou um sentimento de estranhamento ou até melancolia? Parece, às vezes, que se espera tanto pelo fim de semana e que, quando ele chega, não se sabe o que fazer exatamente com aquelas horas tão esperadas.


A filósofa Olgária Matos proferiu em 2007 uma palestra sobre o “Tempo sem experiência" no programa “Café Filosófico”. Nela, questiona o modo neoliberal de viver, em que se tende a trabalhar ininterruptamente até quase a morte. Nesta sociedade neoliberal, este modelo de trabalho exaustivo é amplamente aceito. Mas será que foi sempre assim?


A filósofa conta que a Antiguidade foi marcada por ciclos (estações do ano, colheitas, festas relacionadas aos astros), discussões na praça pública (Grécia) e por momentos reservados para a meditação e santificação (Idade Média). A contemporaneidade, ao contrário, é marcada pela contração do tempo, pelo sentimento de que se está sempre atrasado, por um devir vazio. A vida parece se converter em um presente perpétuo carente de recordação. Um presente é vazio e patológico.


Olgária cita Walter Benjamin, um autor da Escola de Frankfurt, que falou sobre um poema de Baudelaire chamado “Uma passante”. O poeta vê uma mulher no meio da multidão, apaixona-se por ela, mas quando vai abordá-la, esta já se foi. Este é um tempo que passou a ser efêmero e a experiência de “não se ter mais tempo” relaciona-se muito à metrópole contemporânea, onde tudo acontece rápido e num piscar de olhos, tudo pode mudar.


Olgária ressalta que os conceitos de experiência e de perda da experiência são fundamentais no mundo atual. Etimologicamente a palavra experiência refere-se (no alemão antigo) a atravessar uma região desconhecida durante uma viagem. Nesse sentido, desfrutar de um tempo com experiência significa ter contato com o desconhecido, fazer uma travessia, ter contato com vivências que alargam nossas condições no mundo. Mas, com esse esmagamento do tempo, no presente, a experiência foi se reduzindo pois tudo vira passado muito rápido.


As redes sociais parecem um bom exemplo para isso. Tudo parece ficar “velho” muito rápido. Busca-se a cada instante uma nova postagem, uma nova notícia, como se isso fosse um combustível que impulsiona alguém para longe da monotonia.


Existe diferença entre tédio e monotonia?

Olgária entende que sim. Tédio seria a diminuição do sentido da vida e do mundo. Mas no tédio ainda se teria um contato com a própria interioridade, estando presente a tal experiência. Já a monotonia seria um momento absolutamente vazio e sem sentido onde se busca “matar o tempo” - um tempo que não passa, um tempo patológico e sem contato com a interioridade.


Esta perda da experiência leva a uma vivência de heteronomia (ausência de autonomia) em que se perde a autoria sobre o próprio viver. Acabamos sobredeterminados por um tempo que não escolhemos como ocupar e que não nos leva a nenhuma possibilidade de experiências. Vive-se uma correria no dia-a-dia que traz uma sensação de vazio, pois parece que se corre à toa.


Voltando às redes sociais. Será que quando alguém acessa uma rede social estabeleceu antes para si o quanto deseja permanecer ali naquele momento? Ou em que assuntos deseja focar? Ou simplesmente entra num estado semelhante ao de transe? Será que, naquele momento, este sujeito é dono do seu tempo? Ou é um mero objeto? Quem determina nossa atuação nas redes sociais somos nós ou somos meros objetos dos algoritmos e dos interesses alheios? Olgária fala de um tempo que não é vivido, desfrutado e experienciado e sim aniquilado, morto.


Olgária cita também Theodor Adorno quando aborda a perda do poder da imaginação. A filósofa conta que este autor apontou para a crise de imaginação, de criação. É como se este homem não pudesse mais criar e estivesse à mercê da criação alheia para consumi-la. Tornamo-nos meros consumidores e, curiosamente, não sabemos frequentemente o que fazer com o tempo individual. Só sabemos o que fazer com o tempo que é do outro (patrão), porque, na verdade, o próprio tempo e o tempo do patrão se misturam. Acabamos mais “agidos” do que agentes.


Vivemos numa época de aceleração exponencial. É primordial pensarmos em nossa relação com o tempo, com o trabalho, com o lazer, com projetos pessoais e com o próprio desejo. É fundamental para nossa saúde psíquica retomarmos nossa autonomia, ao menos sobre o tempo livre, já que não a temos sobre o tempo do trabalho remunerado, muitas vezes. Se resgatarmos nossa autonomia sobre o tempo livre, seremos mais capazes de pensar nossa relação com o trabalho, com nossa própria existência e com o que faz sentido para si. Como Olgária cita: é preciso retomar os usos e sentidos de nossas vidas e nos desenvolvermos a partir de nossas experiências. A dica da autora é: não apresse a viagem!

Renata Lage Borges


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Palestra “Tempo sem experiência” no Café Filosófico.


https://www.youtube.com/watch?v=pVXl6c_MiAM.